segunda-feira, 3 de março de 2014

O abraço da morte

Se eu pudesse resumir esses dois últimos minutos passados ali em uma frase, esta seria: o inferno seria um alívio comparado a tudo isso.
Uma vez fora dito em algum churrasco, não me lembro bem, que todas as guerras começam com um propósito orgulhoso e todas terminam com pobreza e morte, e ninguém se lembra do motivo pelo qual fora iniciada. E, agora, na situação em que me encontro, o que parecera um absurdo quando fora dito faz todo sentido.
Eu, num momento ou outro de lucidez, ouvia sons que se misturavam, mas ao mesmo tempo conseguia diferencia-los. Havia a voz do padre que acalentava os moribundos com sua reza suave, os gritos de dor dos outros soldados dilacerados por balas, bombas ou alguma doença de guerra, havia o roçar das saias das voluntárias que ajudavam os dois únicos médicos que tínhamos, havia o choro, esse era ainda pior que os gritos de dor; o choro dos familiares que tentavam, sem êxito, chamar seus entes queridos de volta à vida. Do lado de fora da igreja, que tivera seus bancos arrastados para alojar os feridos, mais gritaria. Pessoas correndo, chorando e chamando por nomes a mim desconhecidos, mas o som que se sobressaía era o da destruição; balas de canhão caíam por todos os lados e os cavalos das charretes relinchavam a cada estrondo tornando tudo ainda mais assustador.
O cheiro do interior da igreja era insuportável, éter, sangue, pólvora, dejetos humanos, podridão...
Tentei abrir os olhos. Tudo estava coberto por uma poeira de terra vermelha, meus olhos arderam e eu os fechei novamente. Senti, então, lágrimas quentes esquentarem meu rosto por onde o percorriam. Não chorava por dor física, mas sim, tristeza por ter de presenciar todo aquele cenário tenebroso. Sabia o que era dor física. Há três dias, tivera minha perna esquerda amputada a sangue frio por causa de um corte feito por um dos meus adversários em batalha, não havia nada para amenizar a dor, e, agora, a febre tomara conta de mim. Era entre um espasmo de convulsão e outro que minha lucidez voltava, e cada vez, eu desejava continuar inconsciente. Ao menos, não teria nenhum ente querido que chorasse minha morte.
Uma mão passara um lenço úmido, gentilmente, na minha testa me fazendo tremer com o frio contato na pele febril, tentei abrir os olhos novamente para ver quem cuidava de mim, mas já estava fraco demais.
Um estrondo ensurdecedor ecoou. Pude ouvir mais uma sessão de gritos desesperados e, por fim, um abraço.
O abraço da morte.

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