Se eu pudesse resumir esses dois últimos minutos passados ali em uma
frase, esta seria: o inferno seria um alívio comparado a tudo isso.
Uma vez fora dito em algum churrasco, não me lembro bem, que todas as
guerras começam com um propósito orgulhoso e todas terminam com pobreza e morte, e ninguém se lembra do motivo
pelo qual fora iniciada. E, agora, na situação em que me
encontro, o que parecera um absurdo quando fora dito faz todo sentido.
Eu, num momento ou outro de
lucidez, ouvia sons que se misturavam, mas ao mesmo tempo conseguia
diferencia-los. Havia a voz do padre que acalentava os moribundos com
sua reza suave, os gritos de dor dos outros soldados dilacerados por
balas, bombas ou alguma doença de guerra, havia o roçar das saias das
voluntárias que ajudavam os dois únicos médicos que tínhamos, havia o
choro, esse era ainda pior que os gritos de dor; o choro dos familiares
que tentavam, sem êxito, chamar seus entes queridos de volta à vida. Do
lado de fora da igreja, que tivera seus bancos arrastados para alojar os
feridos, mais gritaria. Pessoas correndo, chorando e chamando por nomes
a mim desconhecidos, mas o som que se sobressaía era o da destruição;
balas de canhão caíam por todos os lados e os cavalos das charretes
relinchavam a cada estrondo tornando tudo ainda mais assustador.
O cheiro do interior da igreja era insuportável, éter, sangue, pólvora, dejetos humanos, podridão...
Tentei abrir os olhos. Tudo estava coberto por uma poeira de terra
vermelha, meus olhos arderam e eu os fechei novamente. Senti, então,
lágrimas quentes esquentarem meu rosto por onde o percorriam. Não
chorava por dor física, mas sim, tristeza por ter de presenciar todo
aquele cenário tenebroso. Sabia o que era dor física. Há três dias,
tivera minha perna esquerda amputada a sangue frio por causa de um corte
feito por um dos meus adversários em batalha, não havia nada para
amenizar a dor, e, agora, a febre tomara conta de mim. Era entre um
espasmo de convulsão e outro que minha lucidez voltava, e cada vez, eu
desejava continuar inconsciente. Ao menos, não teria nenhum ente querido
que chorasse minha morte.
Uma mão passara um lenço úmido,
gentilmente, na minha testa me fazendo tremer com o frio contato na
pele febril, tentei abrir os olhos novamente para ver quem cuidava de
mim, mas já estava fraco demais.
Um estrondo ensurdecedor ecoou. Pude ouvir mais uma sessão de gritos desesperados e, por fim, um abraço.
O abraço da morte.
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