segunda-feira, 3 de março de 2014

O lago

Instruções: Na parte em que tem um link, por favor, acesse-o e escute a música enquanto continua a ler o texto.
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Meus dedos faziam a superfície do lago, outrora, calma e espelhada, ondular. Apoiava-me com os cotovelos no tablado de madeira do deck, no qual me sentava, e sentia o calor confortável do sol se pondo no horizonte tocar minha pele: rosto, braços, colo e pernas; a brisa leve que vinha do lago tornava toda a experiência, ainda mais, especial. De olhos fechados, a mudança da claridade, do dia para noite, era ainda mais perceptível.

Meus pés já estavam enrugados, meus cotovelos já tremiam por ficarem tanto tempo forçados na mesma posição. Peguei a garrafa de cerveja ao meu lado e dei o ultimo gole abrindo os olhos um pouco, e, com mais atenção, observei o que acontecia na outra ponta do lago.

A banda estava animada, e com o cair da noite e o vento soprando mais forte, dava para ouvir as músicas que tocavam no casamento. Levantei o corpo sentando com uma postura regular para enxergar melhor, mas não adiantara muito dada a distância entre o deck e a extremidade oposta do lago. Quando começou a tocar “The way you look tonight” [http://www.youtube.com/watch?v=sIj5sBgyYDg], os noivos tomaram conta da pista de dança enquanto os convidados aplaudiam. Aquilo me fez sorrir. As luzes decorativas do casamento refletiam na superfície trêmula do lago que parecia dançar no ritmo dos acordes calmos.

De novo com os olhos fechados e um sorriso enorme nos lábios inspirei fundo na esperança de inalar o cheiro úmido da água fresca do lago, do jantar que minha cunhada preparava, das olhas das árvores que passaram o dia ao sol...

“... you're so lovely…”

Uma coreografia de balé, nunca vista antes, começaram a se formar na minha cabeça; tirei os pés da água, apoiei a garrafa no deck e, cantarolando, coloquei-os em prática.

Oito meses sem praticar fizeram meus joelhos estalarem nos primeiros movimentos, mas, como dizem, é como andar de bicicleta. Parecia que meu corpo se mexia antes do meu cérebro mandar os comandos; como se tivesse dançado aquela coreografia minha vida toda, tão simples e automático quanto respirar.

A música chegava aos seus acordes finais e, preparada, rodopiei graciosamente uma última vez parando em posição de agradecimento à minha plateia inexistente.

“... just the way you look tonight.”

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