quinta-feira, 12 de junho de 2014

A Culpa é das Estrela (The Fault In Our Stars)


Queria ter visto A Culpa É Das Estrelas aos 15 anos.

Ontem à noite, fui ao cinema para ver o filme baseado no Best-Seller do autor Norte-Americano John Green: A Culpa é das Estrelas. Sim, na véspera do dia dos namorados, eu (solteira) decidi ver o filme mais romântico e triste em cartaz.
O filme conta a história de uma garota chamada Hazel, diagnosticada aos 13 anos com um câncer terminal nos pulmões. Hoje, aos 17, sua mãe nota que ela tem comido pouco, tem lido sempre o mesmo livro e acha melhor que ela frequente um grupo de ajuda para pessoas com depressão. Após algumas reuniões com esse grupo, Hazel conhece Augustus (Gus), um garoto de 18 anos que teve de amputar uma das pernas do joelho para baixo devido, também, a um câncer. A amizade entre os dois começa. Ela empresta o livro que tanto lê para ele e ele empresta um que ele gosta muito para ela, os dois conversam sobre música, assistem a filmes juntos e etc.
 Você se apaixona pelo Gus logo de cara, afinal, quem (com câncer ou não) não gostaria de ter um garoto mais velho e todo seguro de si dizendo que você é linda com ou sem maquiagem, que te leva para piqueniques românticos e que consegue se comunicar com o seu autor favorito só para te ver sorrir como se seus músculos faciais fossem explodir? Diferente de Hazel, ele é bem otimista e não leva a doença ou a questão da falta da perna como se isso fosse o centro da vida dele.
No entanto, minha “análise” será sobre toda a minha experiência ao ver o filme. Começando ao entrar na sala do cinema: comprei o ingresso para a sessão legendada das 18h30, assim, conseguiria sair do trabalho e dar uma “corridinha” no cinema e não chegar muito tarde em casa depois (contanto com greve dos metroviários em SP e com a chegada de todo os espectadores afobados do mundial).  Sentei-me ao lado de um casal de garotas com cerca de 15 anos; a sala ainda estava bem vazia e, enquanto eu fazia meu ritual pré-sessão, mais pessoas chegavam.
Quando o filme começou, 90% das pessoas na sala do cinema eram do sexo feminino e que, pelas reações enquanto o filme rolava, já tinham lido o livro. Achei uma graça notá-las suspirarem com os sorrisos de canto-de-boca do Gus e a cada “Você está linda, Hazel Grace” que ele dizia. Lembrei de quando eu tinha 15 anos e fui ver Crepúsculo após ter lido todos os livros da saga. Esse foi o pensamento que me fez ter vontade de escrever essa análise; aos 15, as meninas acreditam, acreditam nesse amor incondicional de adolescente, no qual tudo é infinito.
A cada dia, eu vejo as meninas se maquiarem cada vez mais novas, começarem a namorar cada vez mais novas e a perderem a essência da infância cada vez mais novas, mas ao ter presenciado toda a comoção no final do filme e ter me posto no lugar delas cinco anos atrás, fez com que eu percebesse que elas, mesmo que só por aquele momento, ainda são só garotinhas de 15 anos que acreditam no amor verdadeiro.
Chorei, sim, mas nada comparado às outras meninas da sala; talvez, tenha sido a primeira grande perda delas, eu não sei; ou, talvez, eu que estava o Grinch do amor naquele momento.
Não li o livro, mas quanto ao filme, só tenho elogios às atuações, à fotografia e ao roteiro.


Enfim, espero de todo o meu coração que essas garotas continuem acreditando no amor neste mundo em que tudo é tão descartável, mas também espero que elas não tomem como único exemplo de amor verdadeiro, o amor de um casal jovem com doenças terminais ou, como no meu caso, no amor entre um vampiro que brilha ao sol e uma humana completamente sem graça. 


segunda-feira, 3 de março de 2014

O abraço da morte

Se eu pudesse resumir esses dois últimos minutos passados ali em uma frase, esta seria: o inferno seria um alívio comparado a tudo isso.
Uma vez fora dito em algum churrasco, não me lembro bem, que todas as guerras começam com um propósito orgulhoso e todas terminam com pobreza e morte, e ninguém se lembra do motivo pelo qual fora iniciada. E, agora, na situação em que me encontro, o que parecera um absurdo quando fora dito faz todo sentido.
Eu, num momento ou outro de lucidez, ouvia sons que se misturavam, mas ao mesmo tempo conseguia diferencia-los. Havia a voz do padre que acalentava os moribundos com sua reza suave, os gritos de dor dos outros soldados dilacerados por balas, bombas ou alguma doença de guerra, havia o roçar das saias das voluntárias que ajudavam os dois únicos médicos que tínhamos, havia o choro, esse era ainda pior que os gritos de dor; o choro dos familiares que tentavam, sem êxito, chamar seus entes queridos de volta à vida. Do lado de fora da igreja, que tivera seus bancos arrastados para alojar os feridos, mais gritaria. Pessoas correndo, chorando e chamando por nomes a mim desconhecidos, mas o som que se sobressaía era o da destruição; balas de canhão caíam por todos os lados e os cavalos das charretes relinchavam a cada estrondo tornando tudo ainda mais assustador.
O cheiro do interior da igreja era insuportável, éter, sangue, pólvora, dejetos humanos, podridão...
Tentei abrir os olhos. Tudo estava coberto por uma poeira de terra vermelha, meus olhos arderam e eu os fechei novamente. Senti, então, lágrimas quentes esquentarem meu rosto por onde o percorriam. Não chorava por dor física, mas sim, tristeza por ter de presenciar todo aquele cenário tenebroso. Sabia o que era dor física. Há três dias, tivera minha perna esquerda amputada a sangue frio por causa de um corte feito por um dos meus adversários em batalha, não havia nada para amenizar a dor, e, agora, a febre tomara conta de mim. Era entre um espasmo de convulsão e outro que minha lucidez voltava, e cada vez, eu desejava continuar inconsciente. Ao menos, não teria nenhum ente querido que chorasse minha morte.
Uma mão passara um lenço úmido, gentilmente, na minha testa me fazendo tremer com o frio contato na pele febril, tentei abrir os olhos novamente para ver quem cuidava de mim, mas já estava fraco demais.
Um estrondo ensurdecedor ecoou. Pude ouvir mais uma sessão de gritos desesperados e, por fim, um abraço.
O abraço da morte.

O lago

Instruções: Na parte em que tem um link, por favor, acesse-o e escute a música enquanto continua a ler o texto.
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Meus dedos faziam a superfície do lago, outrora, calma e espelhada, ondular. Apoiava-me com os cotovelos no tablado de madeira do deck, no qual me sentava, e sentia o calor confortável do sol se pondo no horizonte tocar minha pele: rosto, braços, colo e pernas; a brisa leve que vinha do lago tornava toda a experiência, ainda mais, especial. De olhos fechados, a mudança da claridade, do dia para noite, era ainda mais perceptível.

Meus pés já estavam enrugados, meus cotovelos já tremiam por ficarem tanto tempo forçados na mesma posição. Peguei a garrafa de cerveja ao meu lado e dei o ultimo gole abrindo os olhos um pouco, e, com mais atenção, observei o que acontecia na outra ponta do lago.

A banda estava animada, e com o cair da noite e o vento soprando mais forte, dava para ouvir as músicas que tocavam no casamento. Levantei o corpo sentando com uma postura regular para enxergar melhor, mas não adiantara muito dada a distância entre o deck e a extremidade oposta do lago. Quando começou a tocar “The way you look tonight” [http://www.youtube.com/watch?v=sIj5sBgyYDg], os noivos tomaram conta da pista de dança enquanto os convidados aplaudiam. Aquilo me fez sorrir. As luzes decorativas do casamento refletiam na superfície trêmula do lago que parecia dançar no ritmo dos acordes calmos.

De novo com os olhos fechados e um sorriso enorme nos lábios inspirei fundo na esperança de inalar o cheiro úmido da água fresca do lago, do jantar que minha cunhada preparava, das olhas das árvores que passaram o dia ao sol...

“... you're so lovely…”

Uma coreografia de balé, nunca vista antes, começaram a se formar na minha cabeça; tirei os pés da água, apoiei a garrafa no deck e, cantarolando, coloquei-os em prática.

Oito meses sem praticar fizeram meus joelhos estalarem nos primeiros movimentos, mas, como dizem, é como andar de bicicleta. Parecia que meu corpo se mexia antes do meu cérebro mandar os comandos; como se tivesse dançado aquela coreografia minha vida toda, tão simples e automático quanto respirar.

A música chegava aos seus acordes finais e, preparada, rodopiei graciosamente uma última vez parando em posição de agradecimento à minha plateia inexistente.

“... just the way you look tonight.”